
Como surgiu a idéia da alma penada que toma conta de um corpo em decomposição
Atualmente, poucas figuras fictícias ou mitologias exercem um poder de atração tão forte quanto o do vampiro. Amaldiçoado em usa imortalidade, o “personagem” habita o limiar entre a vida e a morte, corrompendo a existência natural e trazendo destruição àqueles que amaram quando vivos. Paradoxal como todo anti-herói, a força e a vulnerabilidade do vampiro, seu embate entre a luz e as trevas, a necessidade de matar para sobreviver refletem características genuinamente humanas, com projeção de um aspecto obscuro da humanidade. Afinal, conforme afirmou o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679), o “Homem é o lobo do homem”, em outras palavras: como o vampiro, vivemos de explorar, de um jeito ou de outro, nosso semelhante. Daí a identificação.
Mas, se o estilizado vampiro moderno atrai atenção cada vez mais do público – e conseqüentemente da mídia -, quando o mito surgiu, nos primórdios da humanidade, essa figura causava verdadeiro terror. A origem da lenda, que existe entre praticamente todos os povos, esta relacionada a fantasmas que voltavam para visitar os parentes vivos em seus sonhos. E estes parentes adoeciam e morriam. Acreditava-se que diversas doenças eram provocadas por vampiros, principalmente a tuberculose. Na verdade, acreditava-se que o tísico fosse um vampiro. Daí a associação com o consumo de sangue, uma vez que os tuberculosos freqüentemente sangram pela boca ao tossir, dano a impressão de que bebeu sangue.
A aparência dessa criatura mudou ao longo do tempo. Nos contos folclóricos de diferentes lugares, os vampiros mais pareciam fantasmas, envoltos em sues sudários. Também eram descritos com a tez escuta e inchados, verdadeiramente gordos, muito diferentes dos pálidos e magros seres das ficções contemporâneas.
O conceito atual de vampiro vem, principalmente, das lendas eslavas. Suas raízes derivam das crenças e práticas espirituais dos povos pré-cristãos daquela região. Algumas delas se referem ao culto dos ancestrais, aos espíritos domésticos e às crenças sobre o que acontece com a alma depois da morte.
Os demônios e os espíritos eram muito comuns no imaginário das antigas sociedades eslavas. Considerava-se que esses espíritos malignos interagiam com as vidas e os fazeres dos humanos. Alguns eram benéficos e ajudavam os homens; outros eram perigosos e podiam ser destrutivos. Essas entidades eram, na verdade ancestrais ou parentes mortos. Elas podiam aparecer de várias formas, inclusive como animais e com um aspecto humano bizarro, até mesmo grotesco. Alguns desses espíritos também provocavam acidentes, prejudicavam a lavoura e sugavam o sangue de animais de criação – e até de humanos.
Os antigos eslavos também faziam distinção entre a alma e o corpo. Eles não consideravam que a alma morria. Ao contrário, acreditavam que ela saía do corpo e vagava pela vizinhança do lugar onde havia vivido durante 40 dias, antes de partir para a vida eterna. Por conta disso, era considerado necessário deixar uma janela ou porta aberta para que a alma entrasse e saísse de sua casa quando quisesse. Durante esse período, o espírito também teria a capacidade de entra em cadáveres. O aspecto poderia trazer tanto bênçãos como desgraças para a família e os vizinhos ao longo dos 40 dias em que vagava.
Os eslavos temiam muito a vingança das almas penadas. Para evitar desagradar a alma, deva-se muita atenção aos ritos funerários, que deviam assegurar a pureza da alma e apaziguá-la por ter se separado do corpo. O falecimento de uma criança não batizada, uma morte violenta ou de um grande pecador, com um assassino, podiam fazer a alma ligada àquele corpo se revoltar. Outra forma de provocar a corrupção de uma alma ra não enterrar o corpo de maneira apropriada. Um cadáver que não tivesse tido um funeral correto seria suscetível a ser possuído por outras almas e espíritos.
A partir dessas crenças fortemente presentes na cultura eslava, surgiu a idéia de vampiro, que é a manifestação de uma alma penada ao possuir um copo em decomposição. Essa criatura nem morta nem viva era considerada vingativa e cheia de inveja dos vivos, e precisava de sangue para sustentar a existência do corpo no qual entrara. “Esses vampiros eram cadáveres que saíam de seus túmulos à noite para sugar o sangue dos vivos, nas suas gargantas ou estômagos, e depois voltavam aos seus cemitérios. A pessoa que era assim atacada minguava, empalidecia e sentia-se consumida, ao mesmo tempo em que os cadáveres que se alimentavam delas ficavam gordos, rosados e tinha um apetite excelente. Foi na Polônia, Hungria, Silésia, Moravia e Áustria que os mortos tinham esse comportamento, atestou o influente filósofo francês Voltaire (1694-1778) no seu Dicionário Filosófico Voltaire.

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